- Hora do almoço. Fui até a Rodoviária renovar o passaporte. Há um serviço nota mil chamado "Na hora" . Você realmente resolve a sua vida na hora. Da identidade à declaração de que você está em dia com o seu voto e outras chatérrimas burocracias mais. Até postinho da Polícia Federal para fazer passaporte agora tem. O atendimento é rápido, sobretudo considerando o desrespeito médio das filas por aí, e todos os atendentes são muito bem preparados. Onde fica o Na Hora? No subsolo da rodoviária. Desça a escada rolante como se você fosse pegar o metrô. Fica logo à sua direita.
- A rodoviária é muito mais Brasília. Há nela mais da cidade do que há de Brasília nos ícones daqui, como a Esplanada. Quando a gente fala Brasília todo mundo pensa na Esplanada e nos políticos. Injusto. A rodoviária é que deveria ser Top of Mind, junto com tantos outros lugares e pessoas que são, de fato, a capital do país.
- Para quem não conhece Brasília, talvez valha saber que, quando você está na Rodoviária, você olha para o outro lado e vê a Esplanada/ a Praça dos 3 Poderes. Lá é um pouco triste e deprimente, sim. Você olha e pensa: o que se fez da rodoviária de Brasília, meu deus? Mas também pode ser triste e deprimente olhar para o lado de lá, enxergar os ministérios e monumentos e pensar: e o que é isso que tanta gente faz do Congresso Nacional?
- Seguramente, nem todos aqueles que estão no poder podem ser arremessados no balaio de gatos dos políticos corruptos. Da mesma forma, nem todos que estão na rodoviária são dignos de compaixão. Muitos deles merecem, mais do que tantos senhores e senhoras importantes, o nosso aplauso e o nosso orgulho.
- Cheguei na fila do passaporte. Havia gente bem vestida e com cara de bem alimentada e bem tratada na fila, com características opostas às das pessoas que aguardavam para tirar a carteira de trabalho e de identidade.
- Havia também menos gente na fila do passaporte do que nas demais filas. Óbvio. Saindo de lá, porém, pude ver algumas cenas menos óbvias nos saguões da Rodoviária. Sem trocadilho, eu estava lá na hora em que elas aconteceram.
- CENA 1 - TIM, TIM.
Vi duas mulheres, com talvez 50 anos, andando rápido. É difícil saber a idade de uma alma e de um corpo quando a vida maltratou tanto. Elas passaram por mim apressadas. Estavam sorrindo. Foi tudo muito rápido. Elas cruzaram a minha frente com copos de cerveja na mão. Estavam quase correndo, mas, antes de tomar o primeiro gole, pararam um pouquinho, brindaram, sorriram mais e seguiram no passo firme. O que será que elas celebravam? Ou será que não tinham outra razão além daquela, de estarem ali, bebendo juntas? Já não seria o bastante?
- CENA 2 - O HOMEM SAUDÁVEL.
Três taxistas conversando. Ouvi o papo aos pedaços:
- Mas isso que você tá dizendo aí é como se o Mc Donalds fosse bom pra saúde. Eu não acredito. Não vou comer isso, não.
O que será que o outro cara tinha falado sobre Mc Donalds?
- CENA 3 - ÁGUA PARA A GARRAFINHA DE QUEM TEM SEDE.
Entrei na Livraria da Rodoviária, que adoro. Os livros ficam amontoados. Você vai descobrindo o que tem. Nada contra a super organização da Livraria Cultura, mas esse jeito de sebo de livro novo da Livraria da Rodoviária não tem igual. Além disso, como eles vendem muito livro didático e voltado para o Ensino Médio, é uma boa dica dar uma espiada no que andam ensinando nas escolas. E no caixa sempre tem um monte de coisinhas legais - agendinhas, caixinhas de mensagens, calendários, literatura de cordel. Estava conferindo as agendas para 2010 quando uma senhora, vendedora ambulante entrou na Livraria:
- Moça, tem água pra encher a garrafinha?
Não posso arriscar a idade dela. Pela aparência, eu daria uns 80, mas tinha vitalidade de uns 50. Nunca sei que idade gente sofrida tem. Bom, depois da onda da cirurgia plástica, não dá pra saber nem a idade de quem nada sofreu.
- Deixa eu ver. Fulanooooooo!
Vem o Fulano.
- Você põe água pra ela?
- Não dá. Eles estão consertando ainda o cano.
- Ainda?
- Ainda.
A senhora continuava ali.
- Senhora, desculpa, hoje não tem. Tão consertando ainda.
A senhora despediu-se, foi embora, sorridente.
Ou seja, se não fosse o cano quebrado, eles dariam água pra ela.
Numa cidade tão seca, num mundo com tanta gente de coração rachado feito solo de deserto, esses dois atendentes tentaram, ao menos, ajudá-la. Eu, babaca, fiquei olhando e só depois que sai dali me dei conta: deveria ter perguntado se poderia comprar-lhe água. Já era tarde demais. Ela já tinha ido. Tudo muito rápido. A vida passa rápido.
- A vida passa muito rápido. Mas passa num tempo diferente quando se anda a pé na rodoviária de Brasília.
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